Talvez ainda nao tenha 35 anos a mulher que hoje,Dia do Pai,estará a sofrer com as memorias que lhe foram sendo transmitidas e mais ainda com o vazio que sempre sente quando tenta imaginar aquele que cedo se ausentou da sua vida.
Foram precisos alguns anos para ela perceber o porquê dessa ausencia.
Mas recuemos a 19 de Março de 1973.
Estava nessa altura em Piche,na zona leste da Guine.
Seria o meu ultimo periodo no mato.A seguir voltaria para Bissau e ai aguardaria o regresso a casa.
Mas as coisas ultimamente tinha piorado.Os contactos estavam a ser mais frequentes e duros.Nao havia maneira de sairmos de la.
Acabavamos por tentar arranjar maneiras de contornar esses medos.
Era bom conversar no bar com o Alivio.
O Alivio era o Furriel de Transmissoes la de Piche.
Ja o conhecia de ca.Vivia na Reboleira e eu na Amadora.
Pouco mais velho era que eu.
Falavamos do Pigalli,da Minabela,do Lido que tinha aberto à pouco tempo,da Aline a minha vizinha loura,eu sei la.
Falavamos do que é comum aos rapazes de 20 anos.
Mas o Alivio ainda falava de mais alguma coisa.
Ele casou antes de ir para a Guine e durante esse periodo nasceu uma menina.
Tinha estado ca em Novembro para ve-la.
E era ai que acabavam normalmente as conversas e claro com uma foto de pai babado em cima da mesa.
Mas era cool.
Embora as noites fossem quentes e humidas chegava a sentir por vezes o ar frio de quando passeava pelo jardim da Amadora.
Se escutassemos bem ate ouviamos os comboios.
Nessa altura andavamos a largar os trabalhadores na construçao da estrada alcatroada para Buruntumba.
Nao era facil.
Por isso reagia sempre com animosidade quando o Alivio, argumentando que ja nao aguentava ficar mais tempo dentro do quartel,me pedia para o levar.
Sempre lhe disse que nunca o faria,e que ate o invejava por nao ter que ir la pra fora dar tiros.
O que havia la fora nao era bom para ninguem.Eu tinha que ir porque era essa a funçao.
E chegamos a esse dia (19 de Março).
Eram 7 da manha e tinhamos as viaturas preparadas para sair.
É ai que fico incredulo ao ver o sorriso do Alivio entrando para a Chaimite do alferes Aragão.
Esse tinha vindo à pouco mais de um mes para o nosso pelotao.
Embora mais velho que nós,era um menino na guerra.
O Alivio tinha-lhe conseguido dar a volta.
Mas a tensao era tao grande no momento da saida que o episodio com o Alivio depressa ficou esquecido.
Saimos.
Nesse dia a Chaimite foi a frente.A minha White foi atras.
A minha White...Ja me tinha sido distribuida quase à 2 anos.Era uma maquina infernal.Por vezes nao queria pegar.Mas depois de o fazer nunca mais parava.
Ate tinha nome pintado.Chamava-se “Mana”.Va-se la saber porquê.
Talvez porque assim conseguia imaginar ter ao lado quem estava longe.
Estavamos a fazer pouco mais de 10 kilometros ate chegar ao sitio onde largavamos os trabalhadores.
Era sempre a altura mais critica.Por varias vezes ja tinhamos tido contactos e nao eram de “Bons Dias”.
E nesse dia voltou a acontecer.
Porém a Chaimite acabou por entrar no mato e parar,tornando-se o alvo principal.
Pela radio pediam ajuda e foi isso que fizemos.
Tentamos chegar o mais perto possivel e como o meu condutor ja tinha trabalho que chegasse coube-me a mim ir tentar tira-los de la.
A guerra deve ter parado naquela altura.
Subi para a Chaimite e entrei pela escotilha do condutor.
Era dantesco.O Freire , o condutor estava cheio de estilhaços.O alferes Aragão tinha sido atingido na cara.
Mas isso ja pouco adiantava.Pus a viatura em marcha e sai dali.
Embora fosse a fundo ,tive a sensação que nunca demorei tanto tempo para fazer 10 km.
Mal cheguei a Piche dirigi-me para a enfermaria onde ja estava muita gente à espera.
Como ja nao podia fazer mais nada afastei-me.
E ao contornar a viatura vi que tinha sido atingida na parte de tras.
Um rocket rebentou na base da antena e alguem tinha deixado aquela escotilha aberta.
Era aì junto ao radio que o Alivio ia.
Foi aì que morreu.
Chamava-se Alivio Dias,tinha 25 anos,quando deixou a mulher e a filha.
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1 comentário:
É uma história. Veridica... Que seja uma grande homenagem a todos aqueles que a viveram, mas principalmente àquele que já não a pode ler. Vamos fazer com que não haja muitos "Dia do Pai Ausente".
Parabéns a ti que tiveste a coragem de a escrever.
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